FOCO NO OBJETIVO DIMINUI O ESPAÇO PARA O MEDO

O objetivo da cobertura de uma situação extrema não é sentir medo. A guerra não é um parque de diversões. Também não é demonstrar heroísmo. O risco é inerente à guerra, mas não dá sentido a ela. O objetivo de cobrir a guerra é contar o que aconteceu para outras pessoas. O que justifica o risco é a importância que a guerra tem na história das pessoas, dos países, do mundo. Na cobertura de guerra, exatamente porque corro muito risco, enfrento tantas dificuldades para chegar e sair, não posso desperdiçar essa oportunidade, esse momento precioso. Preciso aproveitá-lo ao máximo, assimilando tudo o que posso. Isso me mobiliza. A atenção ao mundo externo, ao objeto, desvia minha atenção de mim mesmo e do medo. Ou seja, o risco é ao mesmo tempo um causador e um dissipador do medo. Parece paradoxal e ambivalente. Mas talvez o paradoxo e a ambivalência sejam inerentes à condição humana.

Além do objetivo de contar a história, tenho o propósito de entender por que as pessoas pensam, sentem e agem de determinada maneira. Alguns jornalistas apuram as histórias para confirmar teses, pressupostos que eles levaram consigo para a cobertura. Esse não é o meu caso. Sou movido pela curiosidade, pelo interesse genuíno de entender as pessoas, partindo do princípio de que somos todos essencialmente iguais. O que nos diferencia são nossas experiências. Eu não sei se essa premissa é universalmente válida, ou não. Mas parto dela, assim mesmo. Não sou um teórico. Minha compreensão é fruto da observação.

Não adianta tentar enganar a si mesmo, nem aos outros. A verdade, de uma forma ou de outra, transparece. A sinceridade do propósito me dá coerência interna. Ser uma coisa e tentar aparentar outra consome energia mental. Quanto maior a distância entre o que eu sou, penso e sinto, e o que eu digo ser, pensar e sentir, maior o desvio de energia mental que poderia estar destinada ao trabalho. É por isso que a coerência interna proporcionada pela sinceridade de propósito me dá força. Inversamente, a falta dessa coerência me fragiliza.

(Extraído do livro “Minha guerra contra o medo: o que o risco de morte revela sobre a vida”, em breve nas livrarias)